domingo, 4 de maio de 2008












200 Anos da COSTA -NOVA




(Fascículo 7)





Mas aquela vinda á borda teve outro efeito. Inicialmente estes rústicos vieram com os animais, servindo-lhes de tocadores, aproveitando os intervalos da lavra. Mas depois, quando o pessoal começou a ser escasso na Companha, o lavrador -gafanhão não hesitou em dar o braço ao remo do meia-lua, saltando-lhe para o bojo, fincando bem os pés nas recoveiras[1], aventurando-se com ele mar adentro. Primeiro,sem ainda lhe apanhar o jeito, atirou-se ao cambão[2].Mas logo percebendo que remar é tão só como afundar o enxadão no ventre da areia e logo o levantar para o voltar a enterrar uns passos a vante, foi rápido em se adaptar ao punho do remo maião[3], e mais tarde, até, em cadenciar a saída do ressoeiro,à falta de outros maiores,que tinham ido para outras paragens.



«ílhavos» no Tejo




Porque em verdade, em fins de 800[4], já os «ílhavos» teriam, de há muito, iniciado a migração pelo litoral abaixo[5] em busca de novas paragens, embarcados numa verdadeira aventura mitológica, produto da irrequietude daquelas gentes, atitude que lhes era peculiar e os levaria a escrever páginas de uma história singular- e até grandiosa!-, de uma migração interna que tem,ainda hoje, lugar de relevo na história sociológica do nosso País. Com eles levaram bem aferrados os hábitos, costumes,[6] e até os tiques culturais e religiosos, resistindo a uma aculturação exterior, preservando-os ciosamente durante muito tempo o que levaria a que justificassem referência, especifica e proeminente, no historial das regiões por onde assentaram arraiais.


5- ENCLAVE

«Arribados» à praia, em local um pouco mais a norte onde um século mais tarde se instalaria a que foi chamada, «Quinta do Cravo», posta a notícia a circular, correndo a boa nova mais rápida do que o vento, logo novos grupos de pescadores se virão juntar aos que primeiro ali tinham desembarcado; num curtíssimo lapso de tempo, Luís Barreto - ou Luís da «Bernarda»-terá por camaradas a Companha do Salvador, do arrais José Fernandes Batata ; a Companha dos Capotes, do Arrais Marçalo Francisco Capote, e a Companha do Galo, do Arrais Manuel Fernandes Bagão. Em S.Jacinto só ficaram as Companhas, da Enxada e a da Canária.





A Xávega

No total, logo cerca de um milhar de deslocados procuram pousio, para si e para a tralha das artes, no areal deserto em frente à Maluca, na lingueta que o mar tinha engordado e o vento consolidara.
Desde logo se iniciaram os trabalhos de construção dos armazéns para guarda dos apetrechos de pesca e pernoita dos pescadores. Por entre as dunas onde despontavam os braços verdes e túmidos do «chorão» a rodear a flor amarela, ou uns simples e acinzentados carneirinhos perfumados, em local mais achegado à beira da ria, começaram a surgir, para sul, uns pequenos palheiros.
Tratava-se de simples tugúrios que mais pareciam vindos da origem do mundo, pardieiros que pouco mais abrigavam que a corcova da duna do areal. Nas noites arrastadiças de invernia o zunzunar do vento a entrar pelas frinchas, fazia tilintar os canecos de esmalte pendurados no padial da lareira. Aqui e ali, despontavam outros palheiros, mas de maior dimensão, para onde se levaram os tanques e as «dornas» para a salga do peixe. O negócio da venda e distribuição deste pertencia a gentes de Aveiro e de Águeda (e interior), mercantis[7] que «geriam» os grupos de «almocreves», verdadeiras companhias de transporte e distribuição, a quem era remetida a tarefa de fazer chegar o peixe, lá para o interior do país, para as beiras profundas. O peixe do último lanço da tarde era lavado e escorchado, para, ao outro dia de manhã ser vendido em Águeda, Viseu, Tondela,etc.
Junto das Companhas, José Luís Barreto- o patriarca da Costa-Nova tornado negociante de peixe, mas e também importador de sardinha de Lisboa, e que mais tarde abriria negócio de aprestos de pesca, em Aveiro - montaria o seu «palheiro» [8], ali ao lado, a norte, do local onde hoje se situa a «casa referida como de José Estêvão» [9], anteriormente propriedade de Manuel de Moura Marinho[10],
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[1] Pranchas aonde os remadores de pé fazem apoio.
[2] Cabo fixado ao remo, à sua proa, que permite ajudar a impulsioná-lo
[3] No meia-lua de 4 remos ,o maião é o segundo remo a contar da proa ,e o que requer mais força
[4] E até em 1771 são já presentes na Costa da Caparica os arrais de Ílhavo, Joaquim Pedro e José Rapaz, iniciadores do povoamento da Caparica.
[5] No «Periódico dos Pobres», Porto de 1855,referia-se em meados do séc.XX ,a ida de uma grande quantidade de pescadores de Ovar e Ílhavo, para Lisboa ,acabada a safra no litoral. E no «Campeão de Aveiro», noticiava-se que quase todos os pescadores de Ovar e Ílhavo, têm ido para Lisboa.
[6] “..a vida ,é toda a vida intensa dos pescadores do Norte, transportada para este rincão do sul ;nele se reproduzem os costumes ,todos os processos de pesca daquela região» -FERREIRA, Manuel de Agro in «Costa da Caparica-Terra de Pescadores»
[7] Também chamados mercantéis
[8] Termo que deriva do facto de estes incipientes abrigos, serem, inicialmente, cobertos de junco
[9] Ver Anexo 9
[10] CUNHA, Cons José Ferreira-Subsídios para a História da Ílhavo ,Gafanha e Costa-Nova










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